Nordeste exporta 300 mil jumentos por ano à China
A busca dos povos por meios, recursos e insumos para sua sobrevivência
não tem limites. O mais recente alvo é, quem diria, o jumento, nosso
jegue, também conhecido como jerico. Isso mesmo, esse asno, cujos
primeiros passos como animal de carga e montaria, nos campos do Baixo
Egito, datam de 5.000 a. C., celebrado em canto e verso por Luiz
Gonzaga, o Rei do Baião, como "o maior desenvolvimentista do sertão", é
cobiçado pela maior população do planeta, que aguarda o momento de
degustar as iguarias que dele se produzirão, com a importação de 300 mil
jumentos por ano do Nordeste brasileiro
A faca chinesa passa ao largo da significação do asinino na cultura
nordestina. Afinal, a China abate 1,5 milhão de burros por ano, que
passam por processo envolvendo tecnologia de ponta. Para os chineses o
que faz sentido é proteína animal, sendo incompreensível o lero-lero que
nossos trovadores começam a expressar no resgate de poéticos relatos de
quem "arrastou lenha, madeira, pedra, cal, cimento, tijolo, telha, fez
açude, estrada de rodagem, carregou água, fez a feira e serviu de
montaria". O "tratamento digno" que sites, protetores de animais e
artistas exigem para o "jumento, nosso irmão", só tem lógica para os
estômagos asiáticos se ele for transformado em tira-gosto.
Por trás da estratégia de transformar o jumento em atrativa cadeia
econômica para os Estados nordestinos há uma engrenagem que conecta os
fios da modernidade com os braços do Estado social. Tradução: a
motocicleta expulsa o jegue dos campos. O flagrante: motos cercando
gado, buscando água, transportando materiais e pessoas. Já a compra do
veículo se deve ao Bolsa-Família e às facilidades de crédito.
Depois de perder tarefas tradicionais, os animais, abandonados por
proprietários, saem das fazendas para circular em estradas e ruas das
cidades, sinalizando o fim de um tempo. A troca do jegue pela moto diz
muito sobre nosso estágio civilizatório. Traduz, primeiro, a chegada do
progresso, que os políticos saúdam com a peroração na inauguração do
abastecimento de água nas cidades: "Com essas torneiras aposentamos o
jumento e as ancoretas". Sinaliza, também, as ineficientes políticas
para fixar o homem no campo. A população brasileira, vale lembrar,
deixou de ser predominantemente rural no período 1960-1970.
A componente econômica é a matriz que conduz os interesses. Os
Estados do Nordeste enxergam na possibilidade de exportar a commodity
(tenho dúvidas quanto ao emprego desse termo para designar um jegue)
como mais um suporte de sua economia. A fome é uma ameaça que paira
sobre o 1,3 bilhão de chineses e os governos nordestinos carecem de
dinheiro para ampliar suas estruturas. Assim, qualquer produto que
atraia os orientais pode ser um bom negócio. Vista sob o prisma
econômico, a alternativa parece razoável. Importa, porém, examinar
outras abordagens subjacentes à questão.
É inescapável a observação de que a mudança de padrões de vida no
Nordeste, a partir da substituição do jerico pela moto, ocorre no fluxo
de velhos e novos vícios. Tendência à acomodação, ampliação do tempo de
ócio, recusa a trabalhos manuais (coleta de lixo nas ruas, por exemplo) e
acidentes envolvendo motociclistas são fenômenos urbanos que se
expandem. Milhares de pessoas deixam pequenos empregos para ganhar o
Bolsa-Família. Muitos recusam o trabalho formal com carteira assinada
por temerem perder o benefício, enquanto casais programam ter filhos de
olho na bolsa-maternidade.
Extravagâncias multiplicam-se. Cena agressiva é moto correndo em
torno do rebanho bovino para conduzi-lo ao curral. Revela a nova
estética rural, tão diferente quanto dissonante dos tempos das bucólicas
fazendas. O que dizem os veterinários sobre as novas maneiras de cuidar
do gado? E o que dizem os ecologistas e gestores públicos sobre a
barbárie que se instala nos espaços urbanos e rurais, retratada por uma
teia de elementos desconjuntados, percepções erráticas sobre hábitats,
arquiteturas que ferem o meio, imitações grotescas, eventos deslocados
das culturas locais? As comunidades acabam "comprando" os pacotes
embalados no celofane da modernização. O fato é que as cidades se tornam
barulhentas; o povo, mais leniente; os campos, mais vazios; os
acidentes, mais constantes; as rotinas, artificiais; e os habitantes,
menos espontâneos. Retrato da felicidade empacotada.
Avanços que poderiam ser creditados às novas tecnologias acabam
ofuscados por um modus vivendi tomado pelo estresse. Até a interlocução
pessoal é mecanizada. A desnaturação cultural - pela absorção mimética
de padrões da moda, comportamentos, atitudes, estilo de vida - impacta
catastroficamente regiões de fortes tradições culturais. É a força (e a
agressão) do progresso. Como cantavam Sá, Rodrix e Guarabira em
Sobradinho, "o homem chega, já desfaz a natureza, tira gente, põe
represa, diz que tudo vai mudar... E passo a passo vai cumprindo a
profecia do beato que dizia que o sertão ia alagar". O preço da
modernidade acaba subtraindo a conta de valores e traços de belas
tradições. Por todo lado borrões da contemporaneidade deixam registro.
Ali se vê o artista de rua imitando atores de mídias massivas, acolá
indumentárias espelham a moda das novelas, a poesia popular é uma lista
de tatibitates, serenatas são baladas que ecoam as "delícias" de ídolos
passageiros, danças e ritos não passam de enfeites de carnaval. Sobra a
gastronomia. Essa, sim, resiste à modernidade.
Não é de admirar que o jegue abra zurros lamurientos na paisagem
nordestina. Sai dos campos abertos, enxotado por um veículo barulhento,
para entrar nos currais de procriação e ajudar a economia. O poeta José
Pedrosa tem o verso: "Da mesma forma que a máquina tira do homem o
ganha-pão, essa tal de motocicleta é um bicho sem coração, porque traz
desassossego, tirando todo emprego do jumento, nosso irmão".
fonte: estadão

